domingo, 24 de julho de 2022

Steampunk

Numa cidade de concreto muitos anos depois de nós. Ninguém sabe o que é fim porque (sobre)vivem no pós, e portanto não fazem idéia nem do que seja “começo”.

Na varanda de um prédio fantasma, uma mulher de cabelos longos e negros, com os pés sobre um banquinho, ameaça atirar-se de costas, 480 metros abaixo.

Chove sem tréguas, e ninguém a observa além de mim.

Atrás do colosso de concreto um enorme tubarão branco pendurado pela cauda enverga o corpo numa curva que termina nos dentes arreganhados.

O peixe é um troféu humano e deve significar algo para a populaçao daquela cidade.

O concreto claustrofóbico, o tubarão, e a menina na varanda; tudo sobreposto pela chuva negra do fim.

Ela murmura para si algo que jamais saberemos. Ali permanece de cabeça baixa, cabelos e roupas molhados fustigados pela agua negra.

A mão do medo acaricia minha pele. Observo enquanto posso.


terça-feira, 19 de julho de 2022

Trovão


De repente tenho 16, e você está lá me esperando sem sequer titubear.
Guerreiro e dádiva, presente do oculto mistério do tudo.
Uma única flor trago para ti.
O tempo crescendo num rugido imenso ameaça partir o céu.
Corro pro seu coração sem olhar para trás.
 


terça-feira, 10 de maio de 2022

Areias de sonhos..


“Every day I wake up then I start to break up
Lonely is a man without love
Every day I start out then I cry my heart out
Lonely is a man without love”



 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Nublacao

Essas manhãs nubladas e úmidas me dão saudade.

Lembra quando você me acordava dentro de mim? No silêncio do quarto sentia meu coração ardendo e, de olhos fechados, desejava permanecer para sempre ligada à você, torcendo para que uma bruxaria enredasse nossos corpos momentos antes de gozarmos, tornando-nos para sempre um.

Não preciso fechar os olhos para te ver sobre mim, mas fecho-os agora para sentir a força da sua proteção.

Aos poucos o lençol ficava molhado e eu percorria suas costas com minhas mãos te implorando por mais.

Você sabia que era amor. E eu sabia que poderia passar a vida assim, entregue a você. Sem medos, sem fome; completa.

Mas, tudo que pertence aos deuses é tomado de volta, e sempre soube que estávamos fadados à dor.

Nao importa. 

Hoje vou dizer teu nome, você vai uivar de volta.



domingo, 1 de maio de 2022

Questões

Tudo me leva a crer que a troca deve acontecer naturalmente. Duas pessoas se apaixonam, imperceptivelmente baixam sua guarda e passam a agir em consonância uma pela outra através de gestos. A partir do momento em que é necessário pedir é preciso prestar atenção.
Pedir não é um grande problema, mas pode resultar em duas coisas: mudança, ou não.
Quando a mudança não vem, as análises começam a ficar desconfortáveis.
Relacionar-se é um troca, quem aqui discorda? Uma troca que vai ocorrer naturalmente.
Mas, tenho me deparado com pessoas que, em vista de pedidos frequentes, permanecem impassíveis.
Dentre alegações, a mais comum é "inabilidade" para atender tais pedidos.
E ai, meus amigos, a filosofia começa a ficar mais complexa.

Relacionamentos existem apenas pela propensão um do outro de estarem juntos, onde nenhum dos dois pode/deve ter benefícios? Serão os relacionamentos totalmente desprovidos de interesse? Devem ser os relacionamentos ideais totalmente desprovidos de qualquer interesse?

Pode, um dos envolvidos, pleitear o que lhe faz falta? 

Caso não seja atendido, não consiga receber o que precisa, o "precisado" deve permanecer inabalável, porque, tendo alegado amor pelo outro, subentendeu que seria também na dificuldade?
 
Até onde a pessoa que pleiteia receber no relacionamento o que sente falta, no caso aqui chamei de "precisado", pode aguardar?
 
Quando o relacionamento se torna um mutante de sua versão inicial, esse encontro entre as pessoas torna-se"desnaturado". Acredito que se não houver uma busca de entendimento, e uma busca altruísta em satisfazer o outro (afinal, se é amor, entendo que não há um sacrifício tão monumental), a convivência deixa de fazer sentido.

 


quarta-feira, 16 de março de 2022

Seis. Um. Seis


Lia observava as nucas de seus dois amigos, sentada no banco de trás, e, entre eles, a paisagem que se transformava conforme os quilômetros avançavam.

Ela sentiu quando o veículo começou a chacoalhar levemente para os lados, e, assim que olhou para fora, através de sua janela de passageira, não havia mais estrada.

— Pessoal — Voltou o rosto para o para-brisa e aproximou o corpo do vão entre os bancos dois amigos na frente — Pessoal, o que está havendo?!

O horizonte vasto e verde, quase sem árvores, fora engolido por uma brancura de nuvens leitosas. Era difícil de acreditar, mas o veículo estava suspenso no ar, deslizando perigosamente para lugar nenhum.

Lia sacudia os meninos pelos ombros, mas eles não olhavam para ela. Suas mãos estavam ficando doloridas de apertá-los até os ossos.

*

Damien conduzia o grupo ao redor do tabuleiro Ouija. Mesmo que fosse um inexperiente ocultista, seu visual trevoso e os cabelos longos e negros eram suficientes para impressionar seu grupo de amigos, transmitindo-os alguma segurança mágica.

Pessoas estão sempre em busca de aventura, ou pelo menos naqueles tempos estavam. Assim, Viana, Leon, Viny e Cecília encaravam o amigo, ansiosos.

Conforme as palavras iam surgindo, o nível de energia entre eles crescia, atraindo todo o tipo de entidade, como uma presa sangrando nas águas do mar aberto.

Manifestações energéticas debruçavam-se sobre os ombros dos jovens, arrastando-os para frequências cada vez mais pesadas.

— 616...?

Silêncio entre eles.

— Para de zoar, gente! — Cecília explodiu — O quê que é isso de 616 agora!?

Damien rapidamente entendeu o significado da nova revelação.

— Tudo é inferno! — Os outros o olharam, agitados — “Tudo é inferno”, é o que significa este número.

— Puta que pariu, chega! — Viana levantou como um raio e correu para dentro de sua casa, seguido pelos outros.

Damien colocou o tabuleiro debaixo dos braços e olhou para trás, onde a mata atlântica de Petrópolis permanecia intocada pelo homem. Sentindo sobre si um olhar desconfortável, seguiu os amigos para dentro.

*

Lia não estava mais no interior do carro. O pavor diminuíra, e, agora, seu corpo flutuava em meio a brumas que se torciam como fantasmas.

Seu corpo e seu coração eram atraídos em direção a um lugar específico. Em sua mente, ela transformara-se em um peixe que nadava. Nadava a favor de uma forte correnteza. Era absurdo, mas sentia em sua espinha a voz conhecida de alguém.

— Estou aqui — A voz longínqua e masculina repetia.

— O que é isso? Onde estou? — Lia atravessava existências e dimensões, flutuando entre éons.

— Estou aqui.

A voz repetiu as mesmas palavras por vezes.

*

Como o jovem metido que era, Damien procurou, ao longo dos meses, uma forma de encerrar a conexão que criara entre os amigos e entidades obscuras durante aquela tarde do Ouija, porém sem sucesso.

Como era de se esperar, a mente de cada um deles cedia aos poderes de sugestões das criaturas que atraíram para este plano.

Durante as madrugadas, passou a ser visitado em sonhos por uma mulher, que o aterrorizava com pedidos de ajuda. Quando sentiu que estava se apaixonando por aquilo – a aparição passara a levá-lo para cama –, ele decidiu tomar providências e entrar em contato com um experiente ocultista.

Após o encontro, em posse de um ritual ousado, ele trancou-se no seu quarto, no porão da casa, e deu início ao trabalho dentro de um círculo, rodeado por sete velas negras. “Nada acontecerá a você, se estiver devidamente protegido por um círculo de banimento” – As palavras do homem vinham à sua memória, como fragmentos soltos revelando-se aqui e ali na areia.

O estado de transe que as palavras do encantamento proporcionavam e a grande quantidade de álcool que bebera entraram em combustão. Minutos depois, o jovem tombou, desacordado entre as velas.

*

Como continuar uma história que acontece fora do tempo?

Lia e Damien encontram-se no vazio, e a única forma de continuar esta narrativa é dar um lugar e uma forma para o que aconteceu.

Suas energias encontraram-se em uma espécie de limbo. Um lugar esquecido entre dimensões, desolador e abandonado. Uma carcaça de tempo, onde tudo foi esquecido ou perdido.

— Então... é você.

Seus olhos se encontraram, e o olhar de repúdio de Lia logo transformou-se em um olhar úmido e misterioso.

— 616 é seu nome — Ele disse, na mente dela, sem mover um músculo da face — Esqueça o dia em que você foi Lia.

— Pois este deveria ser o SEU nome — Ela rebateu, com raiva, se aproximando demais dele – Porque quem ardeu nas chamas de velas negras foi você, e toda a sua casa!

Nesse instante, o rosto de Damien contorceu-se, numa expressão de choque e dor, e, olhando ao redor, ele compreendeu o tudo e o nada.

— Você morreu num acidente de carro, Lia, eu vi. E, durante anos — Ele se calou, lembrando que, para ela, a quantidade “anos” provavelmente não fazia mais sentido — Você está morta, e, através do meu jogo de Ouija... — Calou-se.

Ficaram quietos. Ela sentiu um medo maior que o universo e desabou nos braços dele.

Ao longe, entidades amorfas repugnantes preparavam-se para estraçalhar os dois.

No abraço que durou uma vida, ele jurou protegê-la, e, com o coração que lhe restara, pediu todo o poder aos seus santos que habitavam as trevas.



Correção e Revisão por @the.ladymelancholia

terça-feira, 15 de março de 2022

Igual

Em nenhum momento penso que sou especial. 
A convivência com você tirou de mim até os resíduos de orgulho existentes.
Não sou mais uma mulher linda, engraçada, diferente, estranhamente misteriosa.
Sou mais uma. Mais uma das fotos de internet, igual a todas, em busca de migalhas urgentes. Sou um esteriótipo, uma reproducao vazia e enfeitada. Uma embalagem bonita sem absolutamente nada dentro.
Você me despiu de um jeito irreparável de tudo que imaginei ser uma preciosidade. Foi ruim. Mas é bom.
Vazia sou rio, e assim corro caminhos preenchendo os ocos em mim mesma com uma imprevisibilidade impar.
Nao retenho formas ou fôrmas. Nao me apresento como alguém. Sou discípula, 

nao tenho nome.

Love decay

I feel the blow to turn around Make love revive just one more time Can we be creatures of the night? I’m cursed to love in darkness..