quarta-feira, 16 de março de 2022

Seis. Um. Seis


Lia observava as nucas de seus dois amigos, sentada no banco de trás, e, entre eles, a paisagem que se transformava conforme os quilômetros avançavam.

Ela sentiu quando o veículo começou a chacoalhar levemente para os lados, e, assim que olhou para fora, através de sua janela de passageira, não havia mais estrada.

— Pessoal — Voltou o rosto para o para-brisa e aproximou o corpo do vão entre os bancos dois amigos na frente — Pessoal, o que está havendo?!

O horizonte vasto e verde, quase sem árvores, fora engolido por uma brancura de nuvens leitosas. Era difícil de acreditar, mas o veículo estava suspenso no ar, deslizando perigosamente para lugar nenhum.

Lia sacudia os meninos pelos ombros, mas eles não olhavam para ela. Suas mãos estavam ficando doloridas de apertá-los até os ossos.

*

Damien conduzia o grupo ao redor do tabuleiro Ouija. Mesmo que fosse um inexperiente ocultista, seu visual trevoso e os cabelos longos e negros eram suficientes para impressionar seu grupo de amigos, transmitindo-os alguma segurança mágica.

Pessoas estão sempre em busca de aventura, ou pelo menos naqueles tempos estavam. Assim, Viana, Leon, Viny e Cecília encaravam o amigo, ansiosos.

Conforme as palavras iam surgindo, o nível de energia entre eles crescia, atraindo todo o tipo de entidade, como uma presa sangrando nas águas do mar aberto.

Manifestações energéticas debruçavam-se sobre os ombros dos jovens, arrastando-os para frequências cada vez mais pesadas.

— 616...?

Silêncio entre eles.

— Para de zoar, gente! — Cecília explodiu — O quê que é isso de 616 agora!?

Damien rapidamente entendeu o significado da nova revelação.

— Tudo é inferno! — Os outros o olharam, agitados — “Tudo é inferno”, é o que significa este número.

— Puta que pariu, chega! — Viana levantou como um raio e correu para dentro de sua casa, seguido pelos outros.

Damien colocou o tabuleiro debaixo dos braços e olhou para trás, onde a mata atlântica de Petrópolis permanecia intocada pelo homem. Sentindo sobre si um olhar desconfortável, seguiu os amigos para dentro.

*

Lia não estava mais no interior do carro. O pavor diminuíra, e, agora, seu corpo flutuava em meio a brumas que se torciam como fantasmas.

Seu corpo e seu coração eram atraídos em direção a um lugar específico. Em sua mente, ela transformara-se em um peixe que nadava. Nadava a favor de uma forte correnteza. Era absurdo, mas sentia em sua espinha a voz conhecida de alguém.

— Estou aqui — A voz longínqua e masculina repetia.

— O que é isso? Onde estou? — Lia atravessava existências e dimensões, flutuando entre éons.

— Estou aqui.

A voz repetiu as mesmas palavras por vezes.

*

Como o jovem metido que era, Damien procurou, ao longo dos meses, uma forma de encerrar a conexão que criara entre os amigos e entidades obscuras durante aquela tarde do Ouija, porém sem sucesso.

Como era de se esperar, a mente de cada um deles cedia aos poderes de sugestões das criaturas que atraíram para este plano.

Durante as madrugadas, passou a ser visitado em sonhos por uma mulher, que o aterrorizava com pedidos de ajuda. Quando sentiu que estava se apaixonando por aquilo – a aparição passara a levá-lo para cama –, ele decidiu tomar providências e entrar em contato com um experiente ocultista.

Após o encontro, em posse de um ritual ousado, ele trancou-se no seu quarto, no porão da casa, e deu início ao trabalho dentro de um círculo, rodeado por sete velas negras. “Nada acontecerá a você, se estiver devidamente protegido por um círculo de banimento” – As palavras do homem vinham à sua memória, como fragmentos soltos revelando-se aqui e ali na areia.

O estado de transe que as palavras do encantamento proporcionavam e a grande quantidade de álcool que bebera entraram em combustão. Minutos depois, o jovem tombou, desacordado entre as velas.

*

Como continuar uma história que acontece fora do tempo?

Lia e Damien encontram-se no vazio, e a única forma de continuar esta narrativa é dar um lugar e uma forma para o que aconteceu.

Suas energias encontraram-se em uma espécie de limbo. Um lugar esquecido entre dimensões, desolador e abandonado. Uma carcaça de tempo, onde tudo foi esquecido ou perdido.

— Então... é você.

Seus olhos se encontraram, e o olhar de repúdio de Lia logo transformou-se em um olhar úmido e misterioso.

— 616 é seu nome — Ele disse, na mente dela, sem mover um músculo da face — Esqueça o dia em que você foi Lia.

— Pois este deveria ser o SEU nome — Ela rebateu, com raiva, se aproximando demais dele – Porque quem ardeu nas chamas de velas negras foi você, e toda a sua casa!

Nesse instante, o rosto de Damien contorceu-se, numa expressão de choque e dor, e, olhando ao redor, ele compreendeu o tudo e o nada.

— Você morreu num acidente de carro, Lia, eu vi. E, durante anos — Ele se calou, lembrando que, para ela, a quantidade “anos” provavelmente não fazia mais sentido — Você está morta, e, através do meu jogo de Ouija... — Calou-se.

Ficaram quietos. Ela sentiu um medo maior que o universo e desabou nos braços dele.

Ao longe, entidades amorfas repugnantes preparavam-se para estraçalhar os dois.

No abraço que durou uma vida, ele jurou protegê-la, e, com o coração que lhe restara, pediu todo o poder aos seus santos que habitavam as trevas.



Correção e Revisão por @the.ladymelancholia

terça-feira, 15 de março de 2022

Igual

Em nenhum momento penso que sou especial. 
A convivência com você tirou de mim até os resíduos de orgulho existentes.
Não sou mais uma mulher linda, engraçada, diferente, estranhamente misteriosa.
Sou mais uma. Mais uma das fotos de internet, igual a todas, em busca de migalhas urgentes. Sou um esteriótipo, uma reproducao vazia e enfeitada. Uma embalagem bonita sem absolutamente nada dentro.
Você me despiu de um jeito irreparável de tudo que imaginei ser uma preciosidade. Foi ruim. Mas é bom.
Vazia sou rio, e assim corro caminhos preenchendo os ocos em mim mesma com uma imprevisibilidade impar.
Nao retenho formas ou fôrmas. Nao me apresento como alguém. Sou discípula, 

nao tenho nome.

Love decay

I feel the blow to turn around Make love revive just one more time Can we be creatures of the night? I’m cursed to love in darkness..