segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Sacrifício

Está tarde, estou cansada. As frases inteiras que borbulhavam em mim logo cedo, se foram.
Meu pensamento esta parado. Cabeça, pescoço, coração.
Vazio, nó, peso. 
Judas é uma mulher.
A traição da faca pelas costas em busca de atenção a qualquer custo. O preço alto não assusta.

Fizemos por vocês o trabalho considerado sujo.



segunda-feira, 19 de outubro de 2026

terra do nunca

Quero ir para a terra do nunca,
para que ninguém, nem eu mesma, me encontre
sutis rastros sobre folhas crocantes
o corpo que arrasta, o cheiro da terra no faro
Minha história; não se falará mais sobre
Vão esquecer sobre mim
Não quero ser observada, prefiro observar
ora serei galho, ora planta, até animal
Serei presente, oscilando junto ao vento
Noutro momento partida, 
ausente.











domingo, 4 de outubro de 2026

Magnetismos fóbicos

A cortina se enrolou ao toque de um botão no controle remoto, e aos poucos, revelou uma visão de arrepiar os cabelos.
Por trás de uma parede massiva de vidro havia o fundo do oceano. 
Era aterrador de uma forma magnética. Estávamos, inexplicavelmente submersos, no nível do chão, onde a areia parecia ter sido completamente varrida. Faixas vem distintas, em diferentes tons de marrom estendiam-se até misturarem-se ao longe com o peso negro-cinza de toneladas de litros de águas imóveis.
A superfície, o céu, o ar, o fim daquilo, pareciam tão longe quanto uma outra vida.
No entanto, havia uma estranha luz leve, azulada. Uma espécie de bruma que brilhava serpenteando bem próximo da areia. Vinha de lugar nenhum.
Era uma cena tão anti natural que me fez gritar de horror. A qualquer momento aquela sala poderia ser engolida pela pressão da água.
Meu castigo seria dormir ali. Havia uma cama e nenhuma outra opção.
Fecharam a porta atrás de mim e senti que ia desmaiar.
Minha mente e meu corpo não teriam descanso. Era como se já estivesse morrendo sufocada, esmagada por estilhaços e agua.
Olhei novamente para a terrivel janela de águas negras: vazias de qualquer vestígio de vida.
Meu corpo todo amoleceu.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Resposta que deveria ter dado..

"Por quê vc não brilha?"
Ora essas, cassete, nem tudo brilha no planeta - alías, a maioria - e nem por isso deixa de ser relevante!
Eu não brilho, mas emito calor, não seria a mesma coisa? Papo de física pra vc!
Brilhar é superficial...é simples, é fácil, é óbvio.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Sobremesa

O quanto me surpreendi com a nova letra da
Pitty, em sobremesa?

“Todo dia eu acordo pensando em parar
De noite so penso em continuar
Toda noite penso em coisas pra lhe dizer
Quando acordo só sinto que devia era esquecer”

E a semelhança com o que escrevi há uns dias:

“Meu pensamento é atraído pelo sol. Os raios da manhã erguem com eles mil idéias. Penso em músicas, roupas, cores, artes, diálogos, natureza, animais..
A luz da tarde me convida a parar, a persistir, a sentir saudades. As idéias da manhã já vão longe no horizonte, pequenininhas. Impossível ouvir o que dizem..
A noite deita; enterra meus pensamentos. Cansaço, vontade de me abandonar onde não existe, contradições e finalmente a tão aguardada hora de dormir.
A madrugada eu vivo do lado de lá.”


Sim, gastei agua, mas ficou comoventemente parecido com o que vi.


arte feita com ia, para "pastel zone"



 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Nas margens do Styx

Olhei para trás, uma fila de pessoas subia a ladeira como formiguinhas. Aos pares, trios, ou sozinhas, vinham caminhando com a testa franzida e olhos de esquimó. Sol de quase meio dia.
Enquanto observava, notei uma agitação. Os grupos se espalhavam pela rua, abrindo caminho para uma mulher vestida de moletom rosa empunhando uma arma. O brilho do cano sob o sol me fez terminar a subida correndo.

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A taberna escura parecia uma pequena floresta, cheia de vasos de plantas de folhagens miudinhas e volumosas. Olhei para o pé de uma mesa coberta por uma toalha branca imaculada. Ali embaixo havia um gato cinzento preso numa corda, pelo pescoço:
- Aí está ela!
- Como assim? Vocês transformaram ela em gato?
Encarei as pessoas sentadas ao redor da mesa do felino - fizeram que sim com a cabeça.
Não me ocorreu em nenhum momento perguntar como transformaram a mulher de moletom rosa em uma gata cinza de orelhas de tufos brancos peludos.
Me encarava de baixo, com seu olhar mel e pupilas dilatadas. Dei risada - então tá! Melhor assim. E a arma?
- A arma está segura - a voz do homem me fez tirar os olhos da gata.
- Não! M.?

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Havia esquecido como era descansar a cabeça num peito de homem, ainda mais daquele, que fora tão importante para mim. Fiquei sentindo o calor do pescoço, e a barba pinicando minha testa. 
"Caralho, que delícia.” 
A paz da proteção de um homem daqueles. 
Ouvi meu sistema nervoso dizendo num radinho "O tempo lá fora é de 23 graus, obrigado passageiros, boa viagem" - o avião tinha pousado. Era eu levantando do cockpit e falando "missão cumprida, foda-se, adeus" - a cabine de comando apagada ficando pra trás.
Ah, a paz que só o homem mais forte do que eu tem o poder de me dar.

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As areias dum deserto selvagem engoliam a excêntrica construção quadrada. Por trás de um vidro, de quatro, curtia um sexo maluco. Um loirão de máscara rolava comigo entre toneladas de areia macia.
Do outro lado da vidraça via o vento empilhar e derrubar dunas, que pra lá e para cá vinham avançando sobre o pórtico imenso e escancarado....era tudo dum bege intenso, de texturas ondulantes e limites derretidos envoltos em calor.
Meus joelhos sumiam dentro da areia, o loirão de máscara não dava sinais de cansaço. Pulei no pescoço dele como uma fêmea faminta.
O cenário estava surrealmente vivo. O deserto, o calor, a areia eram todos entidades. 
No subterrâneo de uma grande pirâmide, deitamos lado a lado. Estava escuro e fresco. Cogitei erguer a máscara, mas depois desisti.
Fiquei sentindo seus cabelos com os dedos, a boca e o perfil emoldurados pelo fogo aéreo das luminárias. 


Sacrifício

Está tarde, estou cansada. As frases inteiras que borbulhavam em mim logo cedo, se foram. Meu pensamento esta parado. Cabeça, pescoço, coraç...