sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Vício

Aparecer lá de cara limpa. Esse sim tem coragem. Largou o vício dum dia pro outro. Nao que ele seja melhor, mas admiro…

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Anatomia

Dói lá no fundo na garganta, que parece ir derretendo para dentro de si mesma, escorrendo lentamente, no tempo da criação de uma estrela. Um calor lento cozinha a traquéia e se espalha até as clavículas - não passa nunca daí.
Fico assim, a garganta em chamas, o coração gelado.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Filosofia de andarilha

Talvez as dificuldades, as perdas e os danos da vida estejam para nós como as podas estao para as plantas…

domingo, 8 de junho de 2025

Pastel zone

Nunca tinha andado sobre lápides tão festivas. Azuis e rosas em tons pastéis pintados sobre camadas grosseiras de cal - talvez - davam às cores um ar tridimensional de cobertura de bolo. 
“Um cemitério ao longo da rua” - pensei, observando que aquela provavelmente era a unica rua da cidade. Casinhas emendavam-se umas às outras tanto ao lado esquerdo - do mar, e do grande penhasco - quanto ao lado direito - montanhoso e sem fim.
Curiosamente, as lapides, construídas em alvenaria e com uma altura que não ultrapassava um metro, ou metro e meio, emendavam-se como as casinhas, umas na outras, separadas apenas pelas cores - e pelos mortos diferentes, claro - ao longo do comprimento da rua.
Era como se houvesse a via dos mortos - um longo canteiro central - circundada pela dos vivos, onde mulheres de saias longas e compridas circulavam de chinelos, com tachos apoiados na cintura.
À certa altura, desviei o corpo de uma grande cruz erguida entre alvenarias, para homenagear alguem que imaginei ser importante. Procurei a inscriçao e li abismada “Monteiro Lobato”? A estranheza me fez levantar o olhar adiante.
O mar silencioso brilhava sob o sol, lá abaixo do que pareciam ser quilómetros de uma descida ingrime de rochas. Monteiro Lobato foi instantaneamente pulverizado.
Vi duas mulheres conversando sobre algo que nao conseguia escutar. Suas saias compridas estufadas com o vento e a terra quente que ele levantava. Pareciam nao se importar com o fato de que eu andava sobre as lápides, bem acima delas, como se andasse numa calçada qualquer.
Essas pinturas parecem ter sido retocadas infinitas vezes, e nao consigo deixar de visualizar meus tenis arrancando um grande naco delas, e este voando em uma parabola descedente ate espatifar-se no chão.
De repente noto, sob os mesmos tênis: uma lápide verde-agua. Que linda!
Sigo, sem nunca tirar os Chuck.

Lembrete

Vamos dizer para nós mesmas: nós não precisamos fazer perfeito. Se der merda, nós vamos rir disso com o universo.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Белое море

Se eu e você, querido desconhecido, vamos morrer, então que seja como homem e mulher. Dois contra um; contra a palpavel destruição. O sabor do fim impregnado nas pontas de nossas línguas, na boca toda.
O aviao cargueiro voava tão baixo, que a tridimensionalidade dos prédios e galpoes saltava aos olhos, fazendo nossos frageis corpos encolherem-se até doer. Como se encolher-se fosse evitar a pulverizacao do fim, os membros espalhados por raios de metros ao redor.
Atraves dos vidros do cockpit, observamos a cidade industrial completamente deserta. O branco, e o negro azulado do oceano intercalavam-se enquanto a aeronave mantinha seu voo rasante ao chão. O piloto era um sádico, e nossos gritos desesperados - meus e do comissário - eram combustível para sua loucura.
O comissario de bordo tornara-se atraente. Russo, deveria ter por volta de uns cinquenta. A barba por fazer, pequenos pêlos brancos despontando no queixo, um bigode vasto, ainda negro, e olhos castanhos emoldurados por cima, pelo quepe de aviaçao.
Nao entendia nada do que ele dizia. Arriscava frases em ingles que ele parecia entender o sentido. Não entendia, era só desespero.
- I need to go out of here. I need to take a flight to.. - pra onde era mesmo que eu ia? 
Encaixei meu corpo no dele com um abraço frontal. Trocamos um beijo. Nos olhamos nos olhos, antes de olharmos juntos pela janela. Nos abraçamos muito firme, milésimos antes de sermos engolfados pela imensidão glacial.






Love decay

I feel the blow to turn around Make love revive just one more time Can we be creatures of the night? I’m cursed to love in darkness..