Ali em cima a visão não deixara de ser deslumbrante, ainda que o mundo houvesse acabado, e tudo estivesse rodeado pela escuridão e pelo fim.
Sentia medo quando segurei na sua mão e subi as escadarias grudada em você, que instintivamente adiantava um passo a minha frente, numa espécie de precaução conosco.
Sabíamos que éramos preciosos um para o outro, como se nossa soma fosse sempre maior do que dois. Sentíamos isso no coração e no espírito, e ter nos fazia querer proteger de maneira primitiva, a qualquer custo.
Foi quando abandonamos as escadarias de repetitivos caracóis que notei o verdadeiro abandono daquela construçao. Era um esqueleto sem paredes, composto apenas por pisos brutos e poeirentos, escadarias sem fim e baixos guarda-corpos que avarandavam o nada.
Noite e trevas ao nosso redor quando você encontrou e me sentou numa cadeira jogada naquele andar e sua boca mordeu meus lábios causando um arrepio elétrico. Era como se não estivesse mais viva.
Teu primeiro beijo em anos. Nossas línguas vorazes abdicam do dizer para sentir e as mãos contornando desesperados limites de matéria que não pode ocupar o mesmo lugar que a outra no espaço.
A cadeira fica vazia e ao lado dela você me toma no chão áspero de cimento. Como pode haver paixão no fim dos tempos, com a vida arrasada pela miséria e mesquinhez?
Ser sua não tem descrição. Extrapola de mim o tudo; e sentir você transbordar meus limites me dá vertigem.
Olho nos teus olhos quase que me despedindo. Aquele amor tem que durar mas escapa pelas mãos....não entendo.
De repente estou só e nua no esqueleto úmido de cimento e vigas de metal. Grito seu nome uma, dezenas de vezes enquanto visto minha roupa e tateio por você ao redor.
Desço as escadarias até o térreo sem jamais respirar, e constatando sua ausência, abandono o edifício adentrando o vazio do mundo. Meu coraçao soca o peito desesperado.
Sou um incêndio para iluminar sua busca.
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